Não existem Graphic Novels digitais


Não é de hoje que vemos as diferenças entre o quadrinho digital e o quadrinho físico. Há quem adore a praticidade do digital, que se orgulha em dizer que leva a biblioteca no bolso. Há também aquele que gosta do cheiro do papel, que não troca uma lombada por nada. Independente de qual você gosta mais, é inegável que temos duas formas bem distintas de experimentar a leitura de quadrinhos.


Trabalhando com quadrinhos digitais na Guará em 2020, percebo que existe muito mais diferenças entre a leitura física e a digital do que apenas uma preferência pessoal. Não estamos aqui para fazer juízo de valor e apresentar o quão melhor o digital está para o livro físico ou vice-versa. Na verdade, acho que podemos conversar sobre como funciona a percepção do público de um ou de outro e o que podemos aprender com isso.


Primeiramente, vale notar que o livro físico vem se tornando um artigo de luxo nos últimos anos. Colecionável, presenteável, caro. Isso não é necessariamente algo ruim, já que isso valida o quadrinho como algo maior do que entretenimento descartável. Temos mais entrada na Academia hoje, nas estantes de pessoas que não se consideram leitores de quadrinhos e até em prêmios literários. Claro que isso torna o quadrinho menos acessível, mais elitista e afasta a leitura das massas, o que objetivamente é um problema. Existe muito mais valor agregado em uma graphic novel de capa dura com 200 páginas do que em uma revista de 24 páginas em papel jornal.


Deixo para vocês a reflexão sobre o peso das vantagens e desvantagens desse caminhar em direção a gentrificação do quadrinho. Meu ponto aqui é conversar sobre como isso funciona (ou não) no digital.


Quando vemos um livrão desses numa livraria, ele chama a nossa atenção. Acabamento de luxo, lombada, verniz localizado… ele deixa de ser apenas um veículo para passar a mensagem escrita e se torna um objeto de desejo por si só. Livros bonitos e grandes nos enchem os olhos. Acontece que esse livro, numa estante virtual, é apenas tão impactante quanto aquela revistinha de 24 páginas do lado dele.


No espaço virtual, não conseguimos medir lombada, acabamento de luxo, quantidade de páginas ou qualquer característica do objeto. Temos apenas uma imagem, como todas as outras, disputando sua atenção com um espaço igual a qualquer outro. Mais do que isso, disputando sua atenção por uma revista que foi feita em muito menos tempo.


Como se não fosse suficientemente problemático para o livrão estar de igual para igual com a revistinha, eu ainda vou mais longe e digo que é uma experiência pior ler o livrão digital. O arquivo é mais pesado, mais chato de se encontrar na página certa, pode até demorar mais pra abrir dependendo do seu leitor digital. Uma revistinha vai ser baixada bem mais rápido e será lida mais facilmente. Mais do que isso, provavelmente ela vai ocupar mais espaço na sua estante virtual do que a graphic novel. Como? Se qualquer arquivo no seu computador ou leitor virtual é visto como uma imagem ou um título, ter Teocrasília #1, Teocrasília #2, Teocrasíla #3 e Teocrasília #4 te deixa com a “prateleira” mais cheia do que Teocrasília - Livro 1.


Parece contra-intuitivo, mas no meio digital, ter mais presença parece significar aparecer mais vezes do que aparecer com força.

Vivemos numa época onde a revista mensal não vende tanto quanto vendia e os compilados parecem estar ganhando força. Mas isso é um realidade das lojas físicas. Será que, falando-se de quadrinho virtual, não podemos encontrar o caminho para o retorno da publicação regular?


Eu venho pensando nisso faz tempo, vendo como funcionam as vendas dos títulos da Guará e como estamos planejando e executando o marketing das versões digitais. Publicaremos livros físicos eventualmente, mas será que a abordagem será a mesma que a do digital? Será que não merece uma adaptação?


Acho que ainda estamos próximos demais da tempestade para saber.

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